Integrar o Bitcoin nos balanços das empresas deixou de ser uma experiência marginal para se tornar uma estratégia de financiamento estruturada. Em meados de março de 2026, a Strive (NASDAQ: ASST), fundada por Vivek Ramaswamy, reforçou esta abordagem. Numa única semana, a empresa adquiriu mais 317 bitcoins, elevando as suas reservas totais para 13 627,9 BTC e posicionando-se no top 10 global das empresas cotadas com maiores reservas de Bitcoin. Contudo, esta expansão coincidiu com a divulgação do relatório de resultados do quarto trimestre, que revelou um prejuízo líquido de 393,6 milhões $, grande parte devido à variação do valor justo do Bitcoin. Que lógica financeira e sinais do sector sustentam a coexistência entre uma acumulação agressiva e perdas significativas? Este artigo apresenta uma análise aprofundada sob as perspetivas da estrutura de dados, sentimento de mercado e modelação de cenários futuros.
Acumulação e Perdas em Simultâneo
A 17 de março de 2026, as reservas totais de Bitcoin da Strive atingiram 13 627,9 BTC, um aumento de 317 BTC face à semana anterior. Aos preços atuais de mercado, esta posição está avaliada em cerca de 944 milhões $. Com esta última aquisição, a Strive ultrapassou a CleanSpark, conquistando o décimo lugar entre as empresas cotadas com maiores reservas de Bitcoin.

Fonte: Bitcoin Treasuries
Em simultâneo, a Strive divulgou o seu relatório financeiro do quarto trimestre, abrangendo o período desde o IPO, a 12 de setembro de 2025, até 31 de dezembro. Os principais indicadores incluem:
- Prejuízo líquido GAAP: 393,6 milhões $
- Prejuízo líquido ajustado (atribuível aos acionistas comuns): 208,2 milhões $
- Perda resultante da diminuição do valor justo do Bitcoin: 194,5 milhões $, representando 93 % do prejuízo líquido ajustado
Seis Meses do IPO ao Top 10
A acumulação de reservas de Bitcoin por parte da Strive não foi acidental — seguiu um percurso claro, impulsionado pelos mercados de capitais.
- Setembro de 2025: Strive entra na NASDAQ, com financiamento inicial proveniente de PIPE (Private Investment in Public Equity).
- Novembro de 2025: Lança a primeira série de ações preferenciais perpétuas de taxa variável (SATA), captando cerca de 148,4 milhões $.
- 4.º trimestre de 2025: Adquire a Semler Scientific, que já detinha Bitcoin, acrescentando aproximadamente 5 048 BTC numa única operação.
- Janeiro de 2026: Realiza uma nova emissão de SATA, angariando mais 109,2 milhões $.
- Março de 2026: Adquire mais 317 BTC, elevando as reservas totais para 13 627,9 BTC e entrando no top 10 global.
Desconstrução das Fontes de Financiamento e das Perdas Contabilísticas
| Dimensão Analítica | Dados Específicos | Interpretação Estrutural |
|---|---|---|
| Estrutura das Reservas de Bitcoin | 13 627,9 BTC (valor de mercado ~944 milhões $) | Principais fontes: PIPE (5 886 BTC), aquisição da Semler (5 048 BTC), financiamento nos mercados de capitais (2 694 BTC) |
| Instrumento de Financiamento Principal | Total angariado em ações preferenciais SATA ~257,6 milhões $ | Taxa de dividendo aumentada para 12,75 %, instrumento de elevado rendimento garantido por Bitcoin |
| Desagregação das Perdas Contabilísticas do 4.º Trimestre | Prejuízo líquido GAAP de 393,6 milhões $ | 194,5 milhões $ de diminuição do valor justo do Bitcoin (não monetário), 140,8 milhões $ de imparidade de goodwill nas aquisições |
| Caixa e Liquidez | 83,7 milhões $ em caixa e equivalentes (a 17 de março) | Detém ainda 50,4 milhões $ em ações preferenciais STRC |
A estrutura dos dados revela duas dinâmicas paralelas:
- Expansão do balanço: A Strive conseguiu captar capital através de instrumentos estruturados como o SATA e converteu-o em Bitcoin, "bitcoinizando" efetivamente o seu balanço.
- Pressão na demonstração de resultados: De acordo com as normas contabilísticas atuais, as variações do preço do Bitcoin devem ser reconhecidas diretamente nos resultados. Com o recuo do Bitcoin face aos máximos históricos no final de 2025, a Strive registou perdas não monetárias significativas nos seus livros. Estas perdas são um efeito contabilístico, não uma saída real de caixa operacional.
Como Interpreta o Mercado as "Perdas Estratégicas"?
As reações do mercado à estratégia da Strive dividem-se em três grupos principais:
- Preocupações com a Prudência Financeira: Alguns investidores privilegiam a rentabilidade de curto prazo, questionando a racionalidade de utilizar ações preferenciais de elevado rendimento (12,75 %) para adquirir ativos voláteis, incorrendo depois em grandes perdas contabilísticas. Este ceticismo refletiu-se numa queda de 4,6 % no preço das ações da Strive após a divulgação dos resultados.
- Apoio Estratégico de Longo Prazo: Outros analistas encaram a iniciativa como uma proteção a longo prazo contra a desvalorização das moedas fiduciárias e uma forma de construir reservas digitais. A administração destaca o "Bitcoin Yield" — o aumento de Bitcoin por ação — que atingiu 22,2 % no quarto trimestre, sinalizando que o valor para o acionista está a crescer na perspetiva "BTC por ação".
- Inovação Financeira e Precificação do Risco: Alguns observadores do sector centram-se na manobra de "carry negativo" da Strive. A empresa paga um dividendo de 12,75 % para captar capital, adquirindo depois ações preferenciais STRC da Strategy (antiga MicroStrategy), que oferecem um rendimento de 11,5 %. Embora isto crie um spread negativo de cerca de 1,25 %, é visto como uma forma de "seguro de liquidez", trocando algum custo por um fluxo de caixa estável para cobrir dividendos e evitar vendas forçadas de Bitcoin em períodos de queda de mercado.
As Perdas São Reais, Mas o Caixa Não Está "Queimado"
A chave para compreender o caso Strive está em distinguir entre factos e interpretações.
- A empresa reportou efetivamente um prejuízo líquido de 393,6 milhões $, calculado segundo as normas GAAP. Continua, contudo, a deter e acumular Bitcoin.
- A ideia de que a empresa está em dificuldades financeiras é uma interpretação não suportada pelos dados — a Strive mantém 83,7 milhões $ em reservas de caixa e acesso a financiamento. Uma descrição mais precisa é que a Strive aceita volatilidade contabilística de curto prazo para acumular um ativo de longo prazo e perfil otimista no balanço. Esta volatilidade é um "subproduto" da estratégia, não uma evidência do seu fracasso.
Impacto no Sector: Um Momento de Viragem para Estratégias de Reserva Corporativa?
O caso Strive pode ter várias implicações estruturais para o sector das criptomoedas:
- Redefinição dos Indicadores Financeiros: Métricas tradicionais como o rácio P/E e a margem de lucro líquido tornam-se menos relevantes na avaliação de empresas com reservas de Bitcoin. Empresas como a Strive promovem indicadores não GAAP, como o "Bitcoin Yield" e o "BTC por ação", incentivando potencialmente os investidores a adotar novos modelos de valorização.
- Diversificação dos Instrumentos de Financiamento: A emissão de ações preferenciais (como SATA), em vez de depender apenas de convertíveis ou ofertas secundárias para comprar Bitcoin, introduz um novo paradigma para o financiamento corporativo. Esta abordagem permite captar capital orientado para rendimento sem diluir imediatamente os acionistas comuns.
- Normas Contabilísticas em Foco: O impacto acentuado das oscilações do preço do Bitcoin nas demonstrações de resultados pode levar mais empresas e reguladores a reavaliar as regras de contabilização de ativos digitais, promovendo diretrizes de medição mais racionais.
Análise de Cenários: Múltiplos Futuros Possíveis
Com base nos dados atuais, o futuro da Strive pode desenrolar-se segundo três cenários principais:
- Cenário 1 (Otimista): O preço do Bitcoin continua a subir
Se o Bitcoin ultrapassar o custo médio de aquisição da Strive (cerca de 72 555 $) e mantiver a tendência ascendente, as perdas contabilísticas transformar-se-ão rapidamente em ganhos não realizados. A empresa poderá aproveitar o balanço valorizado para obter financiamento mais barato, criando um ciclo virtuoso de "valorização do ativo — expansão do financiamento". O dividendo elevado do SATA estará bem coberto.
- Cenário 2 (Neutro): O Bitcoin oscila lateralmente durante um período prolongado
Se o Bitcoin permanecer num intervalo de preços, a Strive enfrentará um "carry negativo" persistente. A empresa terá de depender do fluxo de caixa operacional ou de outros rendimentos de investimento (como os dividendos STRC) para pagar o dividendo de 12,75 % do SATA. Neste contexto, a Strive terá de provar que a sua estratégia de "crédito digital" supera simplesmente deter Bitcoin, sob pena de enfrentar pressão financeira continuada.
- Cenário 3 (Pessimista): O preço do Bitcoin cai abruptamente
Se o Bitcoin sofrer uma correção profunda, as perdas contabilísticas aumentarão ainda mais. Isto poderá restringir as condições de financiamento ou levar as ações preferenciais SATA a negociar com um desconto acentuado, dificultando futuras captações de capital. No pior cenário, se a liquidez secar, a Strive poderá ser obrigada a vender parte do Bitcoin a preços desfavoráveis para manter as operações, convertendo perdas contabilísticas em perdas efetivas.
Conclusão
A aquisição de mais 317 bitcoins pela Strive destaca-se num contexto de perdas de 393,6 milhões $. Este caso evidencia a tensão central que as empresas enfrentam ao adotar o Bitcoin como ativo de reserva: o choque entre a visão estratégica de longo prazo e as realidades contabilísticas de curto prazo. O facto é que o balanço da Strive inclina-se decisivamente para o Bitcoin; a interpretação é que o mercado permanece dividido quanto ao custo desta mudança. Para os observadores do sector, a relevância da Strive vai além das suas reservas — oferece um exemplo vívido de inovação financeira corporativa, gestão de risco e da negociação contínua entre expectativas de mercado e execução estratégica. No futuro, a relação entre o preço das ações da Strive e o Bitcoin, bem como a aceitação de inovações como o SATA, serão testes críticos à resiliência desta estratégia.


