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A desaceleração da inflação e o colapso dos preços do petróleo desfazem o consenso de aumento das taxas, divisão de opiniões dentro do BCE, setembro pode ser um ponto de viragem político.
No interior do Banco Central Europeu (BCE), já não há consenso quanto ao próximo passo: continuar ou não a apertar a política monetária. A rápida descida do preço do petróleo e o arrefecimento da inflação na Zona Euro estão a reduzir a urgência de novas subidas de juros, levando os mercados a reavaliar as perspetivas para as taxas ainda este ano.
Segundo a Bloomberg, os responsáveis do BCE, reunidos no fórum anual em Sintra, Portugal, revelaram divergências significativas sobre a necessidade de mais subidas de juros para trazer a inflação de volta aos 2%. Alguns responsáveis consideram que as pressões inflacionistas desencadeadas pelo conflito ainda estão a transmitir-se, podendo manifestar-se tardiamente através dos salários, dos preços dos alimentos e dos serviços.
Outros responsáveis defendem que, com os progressos nos esforços de paz e o petróleo a recuar para os níveis anteriores ao conflito, é pouco provável que se verifiquem efeitos de segunda ordem significativos. A forte descida da inflação na Zona Euro em junho também dá suporte a esta avaliação.
O mercado espera, de forma geral, que seja muito reduzida a probabilidade de uma grande alteração política na reunião de julho, tendo-se consolidado a expectativa de manutenção das taxas. No entanto, com a divulgação de mais dados salariais antes da reunião de setembro, a probabilidade de um agravamento das divergências nessa altura aumentará significativamente.
Facção dovish: risco de efeitos de segunda ordem limitado, dados suportam tese de arrefecimento da inflação
Vários responsáveis manifestaram publicamente uma visão mais optimista quanto à redução dos riscos inflacionistas. O governador do banco central finlandês, Olli Rehn, afirmou em entrevista não acreditar que venham a ocorrer efeitos de segunda ordem significativos, o que significa que o seu apoio a novas subidas é limitado.
O governador do banco central austríaco, Martin Kocher, disse noutra entrevista que a ameaça inflacionista "já diminuiu claramente, pelo menos a curto prazo".
Os membros do Conselho do BCE da Eslovénia e da Letónia, Primoz Dolenc e Martins Kazaks, afirmaram ambos não ser necessário agir em julho; o governador do banco central belga, Pierre Wunsch, sugeriu que poderá nem sequer haver razão para uma nova subida.
A inflação na Zona Euro em junho foi de 2,8%, uma desaceleração acentuada face aos 3,2% de maio, ficando também abaixo da mediana de 3% prevista pelos economistas inquiridos pela Bloomberg. O indicador de inflação subjacente, que exclui itens voláteis como alimentos e energia, e o indicador de inflação no setor dos serviços, muito acompanhado, também recuaram.
Esta evolução deve-se em grande parte ao facto de o petróleo ter caído para os níveis anteriores ao conflito, ficando claramente abaixo do pressuposto utilizado pelo BCE nas suas projeções do mês passado. De acordo com essas projeções, a inflação manter-se-ia acima do objetivo de 2% até 2027.
Facção hawkish: cautela face a uma possível recuperação da inflação
Entretanto, a facção hawkish, liderada por Lane, mantém uma posição cautelosa. Enquanto figura-chave na apresentação de propostas políticas aos colegas do Conselho, Lane sublinhou o compromisso dos responsáveis em "não se fecharem" numa trajetória de taxas fixa.
O governador do banco central alemão, Joachim Nagel, ecoou esta posição, embora tenha reconhecido que a descida do petróleo foi "realmente surpreendente".
O governador do banco central estónio, Ulo Kaasik, afirmou em entrevista considerar "razoável" pelo menos mais uma subida, enquanto o governador do banco central grego, Yannis Stournaras, disse noutra entrevista que, na situação atual, "talvez seja melhor manter o status quo durante algum tempo". Estas duas posições são vistas como os polos opostos da presente divergência.
Presidente do BCE, Lagarde: riscos tornaram-se mais equilibrados
A presidente do BCE, Christine Lagarde, reconheceu, no painel de encerramento do fórum de Sintra, que a situação evolui rapidamente. O painel contou também com a participação do presidente da Reserva Federal, Jerome Powell.
Afirmou que, dada a rápida evolução recente, os riscos de subida da inflação e os riscos de descida do crescimento "podem estar mais equilibrados do que há algumas semanas".
Dados salariais são a variável, reunião de setembro pode ser o ponto crucial
Os analistas consideram que, embora as pressões inflacionistas tenham aliviado, devido ao atraso na divulgação dos dados salariais, o mercado ainda precisa de esperar por informações mais claras. Se a inflação mais rápida do período anterior tiver alimentado exigências salariais mais elevadas, as pressões sobre os preços poderão consolidar-se e prolongar-se por mais tempo.
Simona Delle Chiaie, economista-chefe para a Zona Euro da Bloomberg Economics, afirmou que a melhoria das perspetivas económicas pode alargar as divergências no seio do Conselho do BCE, uma vez que a urgência de novas subidas está a diminuir. Referiu que, embora a previsão de base mantenha a perspetiva de mais uma subida este ano, os riscos descendentes para essa previsão estão a tornar-se mais proeminentes.
Com a divulgação de mais dados económicos antes da reunião de setembro, espera-se que o debate no BCE sobre a trajetória das taxas de juro se intensifique, tornando-se esta a principal janela de observação para a orientação da política monetária na Zona Euro no segundo semestre do ano.
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